O sobrevivente de um aborto

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“…eu disse: ‘Pois é, se eu não tivesse nascido na hora errada não teria me tornado um padre na hora certa’”.

Eu não estava no World Trade Center (11.set), nem nas enchentes do Rio de Janeiro, muito menos no Holocausto Judeu, mas também sou um sobrevivente… sobrevivente de uma catástrofe (humana) chamada aborto e este é o meu relato.

Antes de qualquer coisa quero dizer que “amo e sempre amarei minha mãe e meu pai” independente do que tenha acontecido.

Meus pais eram muito jovens quando se conheceram e logo se apaixonaram, porém, meu pai era casado e tinha duas filhas; toda situação havia se tornado pública na nossa cidade e minha mãe tentou sair do relacionamento indo morar em Recife/PE.

Cerca de três meses depois, minha mãe estava no centro do Recife esperando para atravessar uma rua e exatamente na hora em que o semáforo fechou, o primeiro carro a parar ali, junto a faixa de pedestres, era o do meu pai. Eles não tinham combinado nada, ele nem mesmo sabia onde ela estava morando…. Depois desse reencontro, eles se encontraram por mais duas vezes e em um desses encontros fui gerado.

Quando minha mãe descobriu a gravidez, pensou nas consequências e recebeu através de uma amiga um chá abortivo… ela tentou tomar, mas não conseguia… depois foi a um enfermeiro (tive a oportunidade de conhecê-lo) que fazia abortos clandestinos, mas ele não conseguiu fazer o aborto… depois, quando estava com uns três (3) meses na barriga da minha mãe, o meu pai foi assassinado.

Ao saber disso, minha mãe tentou suicidar-se tomando vários remédios de uma vez só; uma tia minha chega a tempo e a leva para o hospital. Lá, fizeram uma lavagem estomacal e, minha mãe (e eu), saímos do risco de morte, porém, minha mãe ainda pensava em tirar a sua vida, pois achava que não fazia mais sentido viver…. Foi quando, de repente, ainda no hospital, o médico lhe diz, do nada: ”Mãe, não desista da vida, ele se foi, mas uma parte dele está aí em você, é seu filho.”. A partir daquele momento, minha mãe desistiu de tirar a própria vida e, no dia 25 de janeiro de 1982, eu nasci.

Uma pessoa, um dia, me disse: “Padre, eu pequei porque estou grávida”. “Ora” eu respondi: “Não é pecado ficar grávida, mas no seu caso (era uma jovem), o pecado foi o que você fez para ficar grávida”; ninguém deve querer consertar um erro com outro. Outro dia, uma pessoa, dizendo sobre gravidez na adolescência, me falava de uma jovem que nós conhecíamos dizendo isso também: “Que pena que ela engravidou” e tentou explicar dizendo que era a hora errada, então eu disse: “Pois é, se eu não tivesse nascido na hora errada não teria me tornado um padre na hora certa”.

Se conversássemos com um sobrevivente do desastre do 11 de setembro, o que você acha que ele diria sobre o “fanatismo religioso”?

Se conversássemos com um sobrevivente dos desabamentos e enchentes do Rio de Janeiro, o que você acha que ele diria sobre as políticas públicas do seu estado e do Brasil?

Se você ouvisse o relato de um sobrevivente do holocausto, o que ele diria sobre a utopia científica e nazista da época?

Convenço-me que todo sobrevivente é, e sempre será, a melhor opção para se ouvir e saber: como é passar por aquele sofrimento?

Então, se quiserem realmente saber se aborto é certo ou errado, mais que olhar para leis que podem ser mudadas pelos interesses pessoais de homens ou mulheres, mais que perguntar sobre o “direito da mulher”, porque as próprias mulheres (meninas no ventre) também são assassinadas, e mesmo que não fossem mulheres, como no meu caso, o direito que elas têm de matar é maior que o meu de viver?

Mais que o olhar para os políticos, corretos ou corruptos, mais que olhar de uma forma negativa ou positiva para os religiosos, que muitas vezes são caricaturados por alguns órgãos de imprensa como alienados e retrógrados, mais que perguntar ao STF, mais que perguntar a ONU, mais que perguntar aos médicos por possíveis enfermidades que justificariam a morte no ventre, mais que perguntar as mulheres estupradas se desejam abortar ou não ou as grávidas adolescentes ou pobres (financeiramente), mais que fazer um plebiscito para saber se os que estão fora do ventre são a favor do “holocausto silencioso*”  (mesmo em caso de suposta doença ou estupro).

Mais que perguntar para qualquer um desses, se vocês quiserem realmente saber se abortar é certo ou errado, perguntem então para um sobrevivente! Porque ninguém melhor que eles poderão lhes dar a resposta correta! E, se somos sobreviventes, foi por pelo menos um propósito… dar as vossas consciências, que sem dúvida estão em busca da verdade, a real e precisa possibilidade que ressoa do plebiscito dos ventres, como um grande coro de uma multidão de condenados sem crime que bradam, que gritam e que choram: “Aborto? Não!”. Desses somos seus porta-vozes. Nós somos os sobreviventes.

Pe. Sóstenes Vieira

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